Criança autista sente dor? Como perceber e quando procurar avaliação
Seu filho ficou mais agitado do que o normal. Voltou a se morder, bate a cabeça na parede, recusa a comida de sempre ou passou a acordar várias vezes à noite. Ele não diz que está doendo, e talvez nem consiga dizer. Se você convive com uma criança autista, já deve ter se perguntado se aquilo é uma crise, uma mudança de comportamento ou uma dor que ela não está conseguindo mostrar.
Essa dúvida é muito comum entre pais e cuidadores. E a resposta mais importante é simples: sim, a criança autista sente dor. O que muda, muitas vezes, é a forma de expressar essa dor.
Criança autista sente menos dor?
Por muito tempo se repetiu a ideia de que pessoas autistas seriam "insensíveis" à dor. Os estudos mais recentes não confirmam isso. O que eles mostram é que a dor existe, mas pode aparecer de um jeito diferente do esperado, e por isso passa despercebida com frequência.
Algumas crianças reagem pouco a uma batida ou a um machucado e, ao mesmo tempo, ficam muito incomodadas com uma etiqueta de roupa, um barulho ou um toque leve. Isso tem relação com o processamento sensorial, que no autismo pode ser mais intenso para alguns estímulos e menos intenso para outros. Uma reação pequena não quer dizer que a dor seja pequena.
Por que é tão difícil perceber a dor no autismo
Vários fatores se somam:
- Comunicação: muitas crianças autistas falam pouco ou não usam a fala para descrever o que sentem. Mesmo as que falam bem podem ter dificuldade de localizar e nomear a dor.
- Expressão facial diferente: a careta típica de dor pode não aparecer, ou aparecer de forma discreta.
- Comportamento confundido com o autismo: irritação, choro ou agitação acabam sendo atribuídos "ao autismo" ou a uma crise, e a causa física não é investigada.
- Dificuldade com exames: consultórios, luzes, toque e espera podem ser difíceis para a criança, o que torna a avaliação mais delicada.
Sinais de que a criança autista pode estar com dor
Você é quem melhor conhece o seu filho. O sinal mais valioso costuma ser a mudança em relação ao jeito habitual dele. Fique atento a:
- Aumento de comportamentos autolesivos, como bater a cabeça, morder a mão ou se arranhar, principalmente sempre no mesmo lugar do corpo.
- Irritabilidade, choro ou agitação sem motivo aparente.
- Mudança no sono, como acordar muito à noite ou ter dificuldade para dormir.
- Recusa alimentar ou passar a comer só de um lado da boca.
- Proteger uma parte do corpo, mancar, evitar apoiar um pé ou recusar um movimento que fazia antes.
- Levar a mão com frequência à orelha, à boca, à barriga ou à cabeça.
- Isolamento maior, menos interesse pelas atividades favoritas ou perda de habilidades que já tinha.
- Aumento de movimentos repetitivos ou mudança no padrão deles.
Nenhum desses sinais, sozinho, confirma dor. Mas quando aparecem de forma nova ou mais intensa, vale pensar nessa possibilidade antes de concluir que é "só comportamento".
Causas comuns de dor em crianças autistas
As causas de dor são, em geral, as mesmas de qualquer criança. Algumas, porém, são mais frequentes ou mais difíceis de perceber no autismo:
- Intestino: prisão de ventre, refluxo e desconforto abdominal são frequentes e costumam passar despercebidos.
- Dentes e boca: cáries, dentes nascendo e machucados na gengiva, especialmente quando a escovação é difícil.
- Ouvido e garganta: otites e infecções, que causam dor sem sinais visíveis.
- Músculos, ossos e articulações: algumas crianças autistas têm articulações mais flexíveis do que o habitual, pé plano ou o hábito de andar na ponta dos pés. Isso pode levar a dores nas pernas, nos pés e nos joelhos, além de quedas e torções.
- Machucados que não foram percebidos: uma queda, uma torção ou até uma fratura podem passar sem reação imediata.
- Dor de cabeça: pode estar ligada a sono ruim, à visão ou a outras causas.
O que você pode fazer em casa com segurança
- Anote o que observa: quando o comportamento mudou, em que horário piora, se tem relação com comer, andar, evacuar ou deitar. Um diário simples ajuda muito na consulta.
- Observe o corpo com calma: procure inchaço, vermelhidão, manchas roxas ou partes que a criança evita que você toque.
- Use a forma de comunicação da criança: figuras, pranchas de comunicação, apontar no próprio corpo ou em um boneco podem ajudar a mostrar onde dói.
- Converse com a escola e os terapeutas: eles podem ter notado mudanças que em casa passaram despercebidas.
- Não medique por conta própria: dar analgésicos sem orientação pode mascarar a causa e atrasar o diagnóstico. Converse antes com o pediatra ou o médico que acompanha a criança.
Sinais de alerta: quando procurar avaliação
Procure avaliação médica se a mudança de comportamento durar mais de alguns dias sem explicação, ou logo que possível se houver:
- Febre, vômitos repetidos ou barriga muito inchada e dura.
- Inchaço, deformidade ou recusa em apoiar um braço ou uma perna depois de uma queda.
- Mancar ou parar de andar de repente.
- Autolesão nova ou muito mais intensa, principalmente em um mesmo ponto do corpo.
- Perda de peso, recusa alimentar persistente ou dificuldade para engolir.
- Sangue nas fezes, na urina ou no vômito.
Em situações de emergência, como queda com suspeita de fratura, febre alta ou dor intensa, procure um pronto atendimento.
Como é a avaliação e as opções de tratamento
A avaliação de uma criança autista com suspeita de dor pede tempo e adaptação. Os pais e cuidadores são parte central da consulta, porque são eles que conhecem o comportamento habitual da criança. Algumas medidas ajudam bastante: avisar antes sobre as necessidades sensoriais do seu filho, levar um objeto de conforto, pedir para explicar cada etapa antes de tocar e, quando possível, escolher horários com menos espera.
O médico conversa sobre a história, observa a criança, examina com cuidado e, se necessário, pede exames. Existem escalas de observação desenvolvidas para crianças com dificuldade de comunicação, como a NCCPC-R (lista de sinais de dor para crianças que não se comunicam pela fala) e a r-FLACC (versão revisada da escala FLACC, que observa face, pernas, atividade, choro e consolo). Elas ajudam a organizar o que os cuidadores percebem. Muitas vezes o cuidado envolve mais de um profissional, como pediatra, dentista, ortopedista, gastroenterologista e a equipe de terapias.
O tratamento depende da causa encontrada. Quando a dor tem origem nos músculos, ossos ou articulações, as opções podem incluir orientações para a rotina, fisioterapia, adaptações no calçado e, em alguns casos, medicamentos com prescrição. A escolha depende de avaliação individual e deve respeitar o jeito e o ritmo de cada criança.
Se você percebeu mudanças no comportamento do seu filho e desconfia de dor, confie no que você observa. Levar essa suspeita para uma avaliação é um passo importante para entender o que está acontecendo.
Dr. Alfredo Metzger
Médico Ortopedista e Traumatologista com atuação em dor
CRM-RS 39.343 · RQE 44.522 · Humana Ortopedia e Medicina da Dor